Reminiscências da  Juventude

Uma visita ao passado

Essa página que chamo de Reminiscências da Juventude visita a minha adolescência e a minha vontade infinita que tinha para me tornar adulta!! Hoje consigo perceber como essa vontade muitas vezes torna mais difícil de se viver essa fase de grandes descobertas... Talvez por não sabermos quem somos e no que queremos nos tornar!! 

Ah! se eu soubesse... mas sei que isso eu nunca deixaria alguém me ensinar... só a vida!!

Burilando esses pequenos exemplares que apresento a seguir, percebo pura emoção, que tem grande importância para mim porque sei que foram emoções minhas, vividas do jeito que eu soube e que eu pude viver!

É uma sensação no mínimo interessante você fazer um resgate de si mesma e pensar... quem era essa pessoa que escreveu tudo isso, que sentia tudo isso!!  E hoje, aprendendo com a vida a entender tudo isso, a entender o sentido das emoções vividas. Quem sabe essa leitura também não se transforme num convite pra você!! 

Que tal tentar resgatar a si mesmo(a) nesse mundo infinito... e pensar mais na vida para poder vivê-la melhor... 

Nadja Mattos 

 


Incertezas...

Trêmula... trazendo no olhar a dança da insegurança...

No passo militar a exatidão em câmera lenta...

Nas garras de unhas decepadas a impossibilidade de completar a ação...

Sob o peso das incertezas assumindo na solidão a dureza do tiro disparado, da queda segura e do renascer...

Como é bom lembrar e entender que tudo pode renascer e nos fazer avançar!!



Estigma

 A desintegração parcial dos meus anseios dificulta sempre a solidificação da minha Revolução Frustrada.

Poderia eu estar sujeita à minha necessidade de sonhar?

Ou ser-me-ia dado como último direito escrever meu derradeiro poema?

Aqui está minha manhã enlamaçada... da mesma cor do mundo que me deram.

Haveria razão para eu escrever sobre o branco?


Apenas

Nem amores, nem amigos...

Nem lutas, nem esperanças...

Apenas os olhos abertos que nada vêem...

A angústia, o medo que trago na alma.

Apenas o nada que nada contém. 

Apenas os fantasmas de um homem só,

Sem amores, sem crenças, sem amigos, sem futuro, sem passado, sem presente.

Apenas um homem...

Uma incógnita perdida na sua noite inteira.



Partida

Eu, minúsculo, maiúsculo, potente, fraco entre o dia e o medo contemplativo... louco, 

Fora do mundo, fora do corpo no infinito universo, no brilho do sol, na plenitude da lua...

Uma estrela brilha e me chama, a natureza pulsa e ilumina... agora o céu se abre... o tudo se mostra...

Eu vejo, 

Eu vou nas entranhas da luz, na companhia do ego, meu tempo atual, movimento, ida...

Caminho da paz, do puro e do belo.


Ser

Sou entre todos, igual. Nada tenho que antepor a minha frente ou levantar ante os meus pés para me fazer outro.

Sou eu, igual, imperfeito, louco andarilho pelas linhas traçadas ao bico da pena... Sou, nada mais.

E que mais eu queria a não ser o que sou? Eu forma viva e transmutada da forma etérea do ser à forma material do homem?

Sou mais nada... e diante de tudo que sou, renunciarei aos meus sentidos de presença e forma para continuar sendo sempre, quem sou e não quem devo ser.


Poemática em transe

Quero apenas o silêncio, um lugar vazio, sem sombras, onde possa gritar e viver, ouvindo meu próprio ego.

Hoje não me basta o sorriso... quero uma lua viva, um êxtase real... quero estar aqui e não estar, querendo ouvir a mim mesmo.

Quero ser tudo quanto possa, vivo ou morto pouco importa, onde o que vale é o silêncio, a resposta de mim mesmo.

Vale o encontro, meu reflexo vivo, e só... e fim.


Enclausurado

Quatro paredes, uma janela, uma porta entreaberta, um corpo.

Um corpo só para tanto espaço. Um olho, uma boca, um sorriso quebrado pelo silêncio...

Uma pergunta enclausurada na impenetrável escuridão, um grito preso nas cordas vocais...

Uma vontade de sorrir e de chorar, uma dor que não sobressai do limitado espaço do corpo.

Um olho, uma boca, um corpo, lutando pela sobrevivência do éter... Caos...

Vontade de abarcar o infinito com os finitos braços, uma ânsia de amadurecer e fugir...

Fugir pelo mundo e esquecer quem seja com uma alegria recortada de sofrimento, uma paixão desvairada pelo desconhecido...

Um gosto amargo de solidão na boca, os sapatos apertando, a gravata, o paletó, as calças...

Vontade de SER NU e conviver deliberadamente como um todo, sem partições...

Ser reconhecido e reconhecer, amar e ser amado, morrer e viver para a vida eterna sem estar preso ao animado materialismo passageiro, fútil.


Divagações

E o que devo fazer para continuar quem sou?

Por que me deixar abandonar sem luta no vazio que cobre o meu corpo?

Ainda tenho em mim um pouco do sopro rejuvenecedor que me fará andar mais um pouco, e nesta andança sem meta definida, tentarei colher pelos caminhos as definições para a minha alma e com elas, edificar uma nova morada...

Habitar sem temer as paredes que me circundam, crer no que deverei fazer sem por em dúvidas meu pensamento e meus atos.

Ver as possibilidades de um novo homem sonhar, sem a presença do corpo nas horas cotidianas e acreditar em estar aqui vivo com os olhos entregues aos pássaros e as flores que cobrem a margem de nossas estradas.

Acredito na aspereza dos caminhos... espinhos, pedregulhos que cobrem nossa vida, mas que nem por isso deixarei de seguir pelo meio, me abeirando de minhas intenções.

Vou ser, mesmo se necessário, essas pequenas feridas que consomem nossas almas para acreditar que sou alguma coisa além de um simples objeto estático que se faça uso.

Serei teu nome para não ser o meu e verei com teus olhos o que não posso ver com os meus.

Serei de tudo um pouco, um nada de cada coisa infinita, para sentir dentro de mim a ânsia da vida que consome nosso corpo e poder dizer que o bem pouco de nossas ações tem seus reflexos determinados em cada um de nós.

Não existirá mudança em mim em todas as mutações que forem correndo em minha caminhada para que eu possa continuar sendo o mesmo que sou.

Serão diferentes cada ponto, mas o todo será único, único como somos, diferente como sou, como é... Cada ser humano em suas ações !

Depois de ser vou me abandonar já cansado no regaço de um amor e dormir tendo sonhos que me levarão à Eternidade!!!!


Recordações

Num passado longínquo, eles tentaram fugir do mundo e escapar da significação que os olhares humanos contêm.

Tentaram criar um sentimento que só conhecesse seus pensamentos, e que só participasse do mundo que tentaram construir.

Procuraram um sentimento, isento de cinzas, de vazios e de pensamentos enlamaçados...

Mas o silêncio gritou mais alto, proibindo-os de falar... até de sentir...

Um silêncio sem causas, nem explicações, restando apenas uma barreira de orgulho e desprezo... indiferença... ou quem sabe uma tímida barreira simplesmente...

E esse silêncio destruiu tudo o que havia nascido. Já não havia palavras para exprimir o pensamento, nem havia sorriso para exibir alegrias, nem lágrimas por desconhecerem a saudade...

Tornaram-se insensíveis ou quem sabe quiseram fugir das incertezas. Algum dia deverão saber se o sentimento existiu.

A distância é que irá ajudá-los a perceber tudo o que não foi dito... só pensado.

No passado uma realidade abstrata!

Hoje apenas o sonho tenta mostrar o sentimento que não foi sentido!


Silêncio, é proibido falar

Silêncio, sim, muito silêncio. Ninguém ousa dizer uma palavra, nem um ruído ou uma prece cujo tema se esquece.

E então fica-se sem saber o que dizer porque ninguém quer dizer nada. Talvez falte a coragem que substituída pela emoção, aperta o coração e destrói a imagem.

E ninguém diz nada, mas dizer o que, se não sabemos como começar! Se temos medo de nos enganar e ter que aturar a decepção do engano, que não findará em um ano... e depois como recomeçar?

E então continua o medo de ver este amor repartido ao meio e depois ter que chorar...

Então ficamos a favor do vento de olhos e ouvidos aguçados e atentos, esperando o tempo passar...

Mas salvo o desprazer do engano, você me ama e eu também te amo. Mas não ousamos falar, porque se não fosse verdade, se fosse a ilusão da minha idade, talvez eu fosse chorar!!

É melhor viver do que os olhos exprimem e sentir o que o coração reprime, pois é proibido falar!


Última sinfonia

Longe, bem longe ouço o último grito, as últimas palavras, os últimos acordes de uma civilização.

Longe, bem longe, consigo dividir a silhueta, quase invisível, do homem.

Longe, bem longe, consigo ouvir um choro lembrando que existe alegria.

Longe, bem longe, onde não posso mas colocar meus sentidos, o que posso sentir, divisar?

Nada...


Trôpegas palavras que querem ser poesia

O que escrever agora? Que ouço "Travessia", ou que gostaria de ter vomitado ontem, esta coisa que hoje dói em mim e me dilacera?

Não quero chorar... o mundo está cheio de vagabundos na rua, no cinema, no bar da esquina, no ônibus e na fila do ônibus. Vagabundos... Vagabundos...

E eu? Eu... uma mula besta que espera sentada... que pensa sentada... que xinga sentada...

Cadinho de uma memória inteira foi para a fogueira do quintal...

Só porque a vida está cheia de... vagabundos.

Que importa? Que se danem os pensamentos e a vontade de vomitar... 

Vontade louca de desvendar os mistérios do horizonte, do dia acinzentado, das palavras malditas e bêbadas que tropeçam na vontade de não falarem nada.



Nuvens

No dia triste, o meu coração mais triste que o dia...

Obrigações morais e civis? Complexidade de deveres, de consequências? Não, nada...

O dia triste, a pouca vontade pra tudo, pra nada... Outros viajam (eu também viajei), outros estão ao sol (também estive ou supus que estive). Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica, vontade, alegria, sociabilidade...

Outros emigram para voltar... ou para não voltar, em navios que os transportam simplesmente, não sentindo o que há de morte em toda a partida, de mistério em toda a chegada, de horrível em todo o novo...

Não sentem e por isso são deputados e financeiros, dançam e são empregados no comércio, vão a todos os teatros e conhecem gente... mas não sentem! Por que haveriam de sentir?

Gado vestido dos Currais dos Deuses, deixando-os passar engrinaldados para o sacrifício, sob o sol álacre, vivo, contente de sentir-se.

"Deixai-o passar"... mas aí vou com ele sem grinalda para o mesmo destino. Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho... vou com ele sem desconhecer...

No dia triste o meu coração mais triste que o dia, no dia triste todos os dias, no dia tão triste...

Ah! a frescura na face de não cumprir um dever! Faltou é positivamente estar no campo! Que refúgio o não se poder ter a confiança em nós!

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros... Faltei a todos com uma deliberação do desleixo...

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha. 

Sou livre contra a sociedade organizada e vestida... estou NU e mergulho na água da minha imaginação.

É tarde para estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, deliberadamente à mesma hora...

Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico. É tão engraçada essa parte assistente da vida! Até não consigo acender o cigarro seguinte...

Se é um gesto... fique com os outros que me esperam, no desencontro que é a vida.



Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio... caiu pela escada excessivamente abaixo... caiu das mãos da criada descuidada... caiu e fez-se em mais pedaços do que havia louça no vaso.

Asneira? Impossível, sei lá!! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um tapete por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que existem debruçam-se do parapeito da escada, e fitam os cacos que a criada deles fez de mim...

Não se zanguem com ela!! Sejam tolerantes com ela!! O que era eu sem vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes, mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles... olham e sorriem... sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria involuntária, atapetada de estrelas,

Um caco brilha virado do exterior, lustroso, entre os astros.

A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco...

E os deuses olham-no especialmente, pois aí sabem porque ficou ali!


Perdoa-me

Você, flutuando no mundo perdido de sonhos... o místico criador dos projetos além da minha fraca emoção...

Eu, não mais que um grão de areia, perdido na praia de sua terra,  inábil para entender...

Quando você está perto, a realidade perde sua proteção e a solidão rasga na minha alma, mas que vai no interior de sua mente...

E enquanto eu sei, esta fantasia faz-nos perder a cabeça... isto realmente não pode ser assim tão ruim! 

Deixar isto, toma-me mais uma vez...

Amor, as chances parecem assim muito poucas

Perdoe-me pelas estranhas coisas que eu faço... estou submerso no seu oceano. 


Divagações para um amor que não existiu

Caminhos surgiram, decisões foram tomadas... de constrangimentos e incompreensões pintamos a tela de nossas vidas e a penduramos numa parede imaginária sem que, pelo menos, tivéssemos a humildade e o bom senso de discutir seus méritos e técnicas...

Hoje vemos suas cores já inexpressivas descorarem e escorrerem sobre a moldura branca manchando-a de vermelho, às vezes de preto, mas formando em nossas mentes já cansadas a inquietação natural daqueles que, em amor, são inseguros.

Tivemos um sol. Um sol brilhante, cercado de azul, potente e consciente de sua própria magnitude, mas não soubemos aproveitar seus raios, não utilizamos honestamente uma só vez o seu calor...

Procuramos apenas na glacialidade dos pensamentos e ações impensadas, tornar o nosso convívio mais indiferente ainda.

Ah! nosso convívio que foi tão pouco importante que nos passou despercebido durante todo o tempo...

Creio que falei do tempo... É uma pena mesmo que tenha tudo isso acontecido conosco.