HOMENAGEM A UM POETA

Quero compartilhar com você um acervo que me foi entregue por um poeta como um grande presente da vida há muitos anos atrás. E  junto com esse acervo, um processo de reconstrução e uma vontade enorme dele de resgatar os exemplares de sua história, "de burilar reminiscências, cheias de pensamentos inerentes a materialismo ideológico, antropofagismo, romantismo pessimista, perdas irrecuperáveis, irrealizações, fantasias, etc".

Em sua homenagem seguem alguns dos seus exemplares que devem ser guardados no coração e na alma de quem ler, e sei que onde estiver, estará feliz navegando num modelo de arquétipo que sempre buscou e desejou, falando de poesia, de vã filosofia (psicologia) das relações humanas, mas acima de tudo buscando prazer pela vida!! Essa publicação é o meu presente pra quem sempre pensou em jogar algumas sementes no mundo da poesia!!

Muita luz pra você meu poeta, e que você possa seguir tranquilo e sem sobressaltos como sempre quis viver, viajando pelas estrelas em busca de suas verdades !!


Fragmentos de uma noite

"Noite feliz! Onde assumo o risco na travessia dessa rua molhada, 
Porque a embriaguez deixa-me levitar nesse perigo iminente. 

Se por acaso existo, sou uma flâmula esquecida no poste, 
Um pano feio e roto, sobre a minha cabeça oca, 
Um pranto cálido e restrito a esse canto escuro do mundo, 
Um foco de solidão projetado na parede oposta, como sombras, 

Um naco de vida gerada na mais profunda comunhão da tristeza ...


Noite triste! Onde nenhum atrevido aparece pra encarar-me nessa postura imóvel, 

Pra arrancar esse punhal permanentemente cravado no peito, 
Pra umedecer a secura que trava a garganta com areia, 
Pra erguer-me lúcido e desnudo dessa postura de morte...

Noite insana! Onde o vento úmido varre a minha face impura 
E provoca um tremor inesperado no solo, ao redor da cruz. 
Uma aliança de esperança no recomeço do dia já próximo, 
Um regozijo brotado no íntimo dessa refração luminosa, 

Pra resgatar-me ainda vivo dessas longarinas ardentes,

Um manto limpo para recobrir e reagrupar esse foco de alegria, 
Um sopro agudo na nuca para amainar a fúria das ultimas ondas, 
Uma abertura em qualquer ponto dessa mortalha manchada, 
Um raio cortante e definitivo que rasga até o fundo do poço 
E renasce restabelecido, na instantaneidade desse reencontro".


O canto do Cisne

 "Um ruído sublime fere e desequilibra o perfil do silêncio...

Trata-se de um cisne branco aproximando-se de um lago azul oriundo de um horizonte incerto para anunciar o tempo do sol. Ele carrega consigo a esperança saciada e refletida do lago.

Percebo a música do cisne como um rastro de luz, um feixe de segredos  e mistérios nos sons do crepúsculo, que reaparecem depois inteiros, na noite em movimento, levando de roldão a ressaca amarga do canto oculto.

Canto que reflete o recanto, o encanto e o aroma do amor, e ressoa sublinhado, na forma triste de fazer o cisne chorar, mesmo no limite da embriaguez misturada entre o dia e a noite, na mesmice da música oscilante e sem acústica, na margem do lago.

O cisne que canta solenemente um piado seco em homenagem ao sol, e leva-o numa lanterna iluminada ao caminho do som, onde ocorre o final do silêncio sem a justificativa do barulho, um eco vivo e propagado nas águas claras do lago, na inversão da imagem...

Esse brilho difuso confunde seu canto de seresteiro de abadia, um certificado à eternidade da alegria, na velocidade da luz. A luz instantânea como o canto triste do cisne na margem do lago, que transforma o tempo claro e escuro nessa estranha sinfonia.

Sou como o cisne que canta a paz inexistente no ultimato do tempo e também transforma minha existência impura num lago límpido, uma moldura onde os raios vistos e acordes ouvidos são raros e ínfimos, mas, por mais pequenos que sejam, deixam-nos momentaneamente felizes".


Um novo dia

"Trago comigo um semblante sereno e contemplativo, de quem espera pacientemente  a dissipação da névoa. Um amanhã tranquilo e transparente, sem a neblina que envolve o vale do Mucambo e que não deixa contemplar o céu.

 Amanhã um outro dia qualquer, continuarei nesse cenário sombrio observando o horizonte longínquo em que pretenderei chegar impulsionado por essas nuvens negras...

Os remorsos aflorados dos túmulos violados serão carregados nos pensamentosa confusos, extraídos das gavetas recém abertas e transportadas na urna póstuma de ontem.

Amanhã, um novo dia de recomeço, um sorriso encabulado e preso nos dentes, brotará uma alegria no fio tênue da esperança, a última chance da chama da vela acesa, que acenderá as outras...

Amanhã, será o dia do resgate e da reavaliação dos danos acumulados, e reposição dos gestos disponíveis, na irradiação luminosa do ser.

Amanhã, não esconderei as mãos feridas e dilaceradas pelo sofrimento vencido, pela imprecisão do rumo, da rima... 

Amanhã, quando tudo clarear, deixarei a lassidão do tempo e seguirei por aí... no lombo do corcel

Através da trilha escolhida".


Revelações


"Eu sou um pouco de beleza a partir do movimento do vento,
Como as folhas que se movem na costa em direção ao mar.
Eu sou uma luz que aquece a laser a mente ao lado,
Como as algas que causam reações em cadeia no íntimo do ser.


Eu sou uma parcela de irmão necessitado de amor,
Como o desprezo que demonstro pelo bem recebido.
Eu sou uma fé pífia revelada numa esperança ardente,
Como a busca incessante de algo inerente à felicidade.

Eu sou uma fração de amigo, na superfície de uma função,
Como a alegria incontida brotada no sorriso de uma manhã.
Eu sou uma essência de alma, unida na incerteza da imaginação,
Como a imagem refletida no mesmo espelho dos olhos.


Eu sou uma porção de lágrima sincera, derramada num momento de sensibilidade,
Como a noite calma e úmida pelo orvalho teimoso.
Eu sou a solidão dos móveis esquecidos que não revelam anseios,
Como os impulsos perdidos em reflexões necessárias.


Eu sou uma medida de som dissonante, uma voz vibrante do ar,
Como a justica ignóbil na prática de um incesto incauto.
Eu sou o ato inclemente dessa confiança mutante e à toa,
Como o sono que embala merecidamente o esquecimento.


Eu sou uma dose de perdão, quase sempre não aceito,
Como a foz que engole as águas de um rio sem pergunta.
Eu sou a flor de cactos, envolvida nos espinhos protetores,
Como tudo que delimita e dimensiona esse caminho revelado".


Encontro

"Sempre existirá vestígios de corpos espalhados, abandonados dos donos e dos arquétipos, sem etiquetas que os identificarão numa estatística vã, como entidades efêmeras além dos movimentos incertos...

Eu não queria ser esse tipo de corpo indigente, minha diminuta centelha estaria nas montanhas, ou numa terra fértil à sombra de um cajueiro, acompanhado do mais puro e significativo esquecimento...

Aquele que mora no leito frio do campo eterno, onde o amor germinado nunca será extinto, nem seria possível matá-lo num encontro entre o céu e o mar.

Vidas e corpos desfeitos, jogados ao léu, onde a consciência convicta caminha em direção ao nada e mesmo assim, um provável encontro seria agendado, no trajeto da divina graça transcendente ao retorno, onde poderia desfrutar o néctar infindo dos campos"...


Viagem

"Quando o homem e a mulher introvertidos, olharem-se na mesma angulação do sentido, sentirão suas mãos enrijecidas afastarem-se rapidamente e depois retornarem umedecidas ao início...

Aí não haverá lágrimas afloradas sem nenhum esforço, apenas um sorriso de neutralidade mútua. Seus passos não serão apagados pelos mísseis balísticos imotivados e artificiais, mesmo de longo alcance.

Mãos dadas numa rígida coesão molecular, elevarão seus sentimentos aos satélites na órbita do amor. O pranto duradouro do homem e a completude da mulher, transformando-se no encontro do regozijo.

Eles viajaram untados numa cera de alta adesividade. Assim não se fragmentarão nas estradas, se isolarão no seio materno e leitoso da terra de Canaã, onde não existirão homens carentes, 

Deixarão um rastro de poeira cintilante saído dos poros, que delineará a linha projetada, 

Buscarão serenamente a maior montanha existente na geomorfologia inversa do destino descontínuo".


Presunçoso

"Eu estou como uma folha seca descendo desgovernada na correnteza de um regato em busca do desconhecido, o sol que aquece e irradia o complemento do sentir, diante de tudo que te envolve e ilumina, provocando reações íntimas maravilhosas na linha imaginária e parabólica do existir.

Eu sou o teu irmão do lado, amado, necessitado, que não agradece ou reconhece o bem que já fizestes. Eu sou tua fé, uma estrada de esperança, uma fonte de alma, sempre te mostrando o rumo devido para tua felicidade...

Eu sou o teu amigo ausente, persistente, eloquente, onipresente, que luta sem desespero e sacrifício contra os algozes poderosos e fortalecidos, em função de ti. Eu sou a recompensa, que espera apenas numa clara manhã, o esboço do teu sorriso...

Eu sou tua inconsciência mística, altruísta, penetrando fundo no teu íntimo, como uma sonda infinda tentando resgatar as linhas imaginárias de tua inocência.

Eu sou a imagem refletida nos teus olhos de súplica, como o espelho de cristal refletindo o céu...

Eu sou a lágrima sincera, derramada na presença de tua sensibilidade, eu sou a noite calma e fria, onde o orvalho refresca e acaricia teus anseios, nos momentos de solidão.

Às vezes, eu sou mesmo a própria solidão a te impulsionar para uma reflexão necessária...

Eu sou a voz forte do poder, querer, fazer, que te guia confiante na justiça dos teus atos. Eu sou o sono que te embala carinhosamente, merecidamente, para que sintas a plenitude das águas e das viagens oníricas, a caminho da consciência...

Eu não sou, mas gostaria de ser o perdão, para colher e retribuir a paz, como sementes nos campos férteis, domar o ódio até transformá-lo em desejos atingíveis...

Me contento em ser uma flor de lis, um lírio tolo, que te doa o perfume da vida, apenas por um instante...

Enfim, eu sou tudo isso. Porque és minha certeza, verdade e história...

Meus olhos teimosos, tortos, estrábicos, presunçosos, não se cansam de ti".


Amanhã

"Trago comigo uma sensação semelhante ao pouso das aves migratórias, que atravessam o mundo preservando a espécie... A viagem sem volta da enguia para garantir o sucesso dos filhos. Portanto, carrego comigo um semblante sereno de quem espera pacientemente.

Aqui sentado, observo esse cenário mutável e inquietante, onde acumulo sabedoria e conceituação no envolvimento com o amanhã, quando essa neblina envolverá todo esse vale e as nuvens estáticas, que não me deixarão contemplar com profundidade o céu...

Amanhã, somente amanhã eu tentarei acariciar com as pontas dos dedos esse horizonte no qual pretenderei chegar. Por enquanto, eu deixo essa luz irradiar meu ser e as folhas dos coqueiros derramarem seu sorriso em forma de vento...

Hoje, aqui sentado, procuro  evitar a corrosão do meu íntimo, não permitindo que a oxidação destrua minha ferragem óssea, possibilitando dessa forma o resgate do meu corpo silencioso para amanhã...

Amanhã eu mostrarei aos outros o que tenho escondido nas mãos... ficarão surpresos com a textura da pele, livre do sofrimento de ontem,

Porque amanhã será o desfecho dessa viagem telúrica, 

Uma pedra, um riacho, uma árvore qualquer, poder se transformar nas mãos que procuro...

Amanhã falarei de amor... depois de amanhã também".

 


Tristeza

"Noite Feliz! Noite de Deus! Noite em que perdi o elo estrutural de uma existência, como se fosse um vaso de cristal quebrado pela falta de cuidado...

Como se minhas mãos fossem incapazes de criar a mínima coisa... Como se o sentimento de perda superasse todos os estímulos de uma reviravolta... Como se essa tristeza jamais pudesse ser superada, permanecendo protagonista dos meus gestos e atos.

Deus! Se por acaso existe e estás sempre disposto a ajudar figuras ocultas e tristes, paira sobre minha cabeça um gesto mínimo, um sorriso, uma pranto cálido, nesse meu canto escuro, inóspito, inquieto, cenário completo da mais pura solidão, onde encontro-me projetado na mais intensa e absoluta comunhão de silêncio...

Para romper com esse mudismo absoluto de uma tristeza assumida, gostaria de encontrar-me face a face contigo. Para isso existimos... Quero afastar esse punhal atravessado no peito, que suga minha vida, estreita a garganta, impedindo de gritar a minha ira aos quatro cantos e elimina até a última gota, minha força interior para enterrar meus mortos...

Meu canto é colinear com todo esse sentimento. Tristeza fossilizada... Talvez um terremoto no epicentro desse canto, sacudisse a chama triste do meu íntimo, sacudisse meu corpo frágil num ballet simétrico à centrifugação da tristeza... 

Até sentir a plenitude das ondas emergindo-me da escuridão do medo e finalmente, mostrar-me totalmente os caminhos verdadeiros da felicidade".


Deus Inverso

"Qual desses é o verdadeiro portão, que levará ao encontro de Deus? Se procuras a morte, encontrarás a proposta invertida e prometida, dessa síntese divina...

Se penso assim, louvo uma aranha negra que suga e deturpa todos os sentimentos... Eu sou um foco lilás de elétrons, que cega os olhos do centro geodésico das coisas... Eu sou o verme sem cura, que consome a comida pouca das barrigas ácidas... Eu sou o desfecho indesejado do clímax, um oásis iludindo o deserto...

Venham rápido! Estarei seguindo adiante nas esquinas das cidades grandes e pequenas, onde não existirão poesias, rajadas de vento e olhos fechados de suspiros, nem tampouco prados líricos, supostas residências celestiais, onde Deus se escondeu oculto... Ou no inverso dessa paisagem de fogo, onde os vulcões atômicos demográficos, exporão as vísceras dos homens indefesos, festejando a chegada silenciosa das larvas, como se fossem chuvas no sertão...

Eu estarei nesse ponto crucial, entre todos os beijos dados em horas incertas, como o réu do futuro, bode expiatório, que a humanidade luminosa julgará. Serei o ócio que desfrutará a desfeita, a inveja que enlouquecerá as máquinas, serei ainda o medo do seco escondido nos orificios do corpo, internalizado de incompreensão, dançarei freneticamente numa chuva de vírus, enganado por todos...

Viverei numa floresta de pedra, onde os gritos ecoarão múltiplos e depois se refletirão como poeira cósmica enfeitando as cabeças coloridas...

Pretenderei traçar uma linha de fechamento, para o reencontro com Deus. Levarei como estandarte, as pontas de flechas envenenadas de antibióticos necessários, capazes de exterminar a paz prisioneira dessa poligonal restrita... Romperei definitivamente com as ameaças dos chefes em exercício no poder.

E mesmo depois de tudo isso, se me perguntares, onde finalmente se encontraria Deus, sinceramente, eu não sei"...


Terra

"Desmatamento constante sobre a terra. Terra nua, imolada, queimada de raios ultra violeta. Lá do alto percebe-se infinitos pontos assimétricos, exterminadores de fontes e sombras... Assemelham-se aos pescoços sangrados, cabeças pendidas, erguidas em muros altos e chaminés vivas. 

Essas coisas movimentam-se em círculos, às vezes pendularmente, junto às poças de sangue e lagoas secas. Refletem o estágio atual das cidades, campos, rios, folhas verdes, desertos, manchas de óleo sobre o mar, espumas em riachos de água doce, assoreamentos de vertentes, aterros clandestinos, monumentos decepados e tudo...

No ventre úmido da terra, magma encandescente, os gases insistem em rasgar a crosta em locais impróprios, brotam incessantemente sementes feito brasas, fetos de fogo colorem o manto berço orvalhado do lençol marrom.

A terra é uma mãe esférica, pairando sobre o tudo e o nada. Seu azul desbotado, confunde-se com o verde cinza das planícies e correntezas, que serpenteiam os vales, escavando e descobrindo o melhor caminho para a foz. Rasgam e ferem as curvas de níveis, sem permissões e desculpas. Queimam seus cabelos mais íntimos, como se fossem as matas virgens, reservas intocáveis da sanha assassina dos seus filhos ingratos.

Teus filhos! São os cirurgiões que cortam tua pele impiedosamente e depois a queima com os venenos da nova era... Eles ressentem teu sofrimento e choram com os estragos feitos no teu rosto. São as lágrimas derramadas das escarpas... Depois, ainda tentam cultivar teu solo sagrado, molhando a face oculta e desnuda, após a maquiagem de fumaça.

Terra! Teu perfil denso e colorido, é de concreto e desespero. Pontes e viadutos de ilusões. Carregas em teu íntimo, uma fome sacra e persistente, como ladainhas de velórios, fruto de uma convivência desigual, harmonia de irmãos com poucos pratos e choque de idéias.

Quando tu sofres, escoa no seio dos planaltos e florestas, teu grito de órbita. Alerta de morte... São os sinais do apocalipse desenhados nos mapas de tua constante reconstrução. Estás mutante... Estás doente! Teus sintomas mais visíveis são os derrames provocados pelos soluços, ou soluções, que irradiam tristeza, durante o afastamento do sol, refletida em terremotos e vulcões.

Terra! Teu perfume de festa, exala a maresia dos esgotos escorridos, como uma menstruação infinda, e o suor derramado no teu dorso, é rapidamente evaporado sem deixar sinasi de luta e sobrevivência. Restam os vestígios de um ordenamento profundo, o cálculo pefeito de tua viagem no cosmo e o odor dos sertões...

Terra! Quando os dias ressurgem com seus guarda-chuvas, ficam os fragmentos do cotidiano. Tua luta, labuta, é o castigo do sol, fonte de vida suprema pra saciar a sede dos sobreviventes da nau... Somos as únicas testemunahs de teu arbítrio, teu riso amarelo, preto e azul diante da lua. A bastarda... 

Tua última saída será a busca eterna de uma aparência jovial, como um útero verde e produtivo. Leva-nos com as borboletas ao vento, a um porto seguro de nossas cumplicidades".


Uma simples viagem...

"Não recordo o início dessa viagem, inúmeros caminhos são percorridos, ladeiras íngremes e desapontamentos...

As migalhas de lágrimas presenciadas, rolam nas faces humanas comuns. São insuficientes para umedecer a terra...

Incontáveis mãos estendidas, confundidas, definidas como obras de arte no processo do reaparecimento, que enfeitam paredes nuas e sorrisos cariados...

Do outro lado do muro, os cemitérios se estendem estampando uma paz solene entre os mortos, onde o silêncio dos vivos nada representa...

E o vento sopra forte no desenlace do trovão, espalhando sofrimento e desabrigo nas cidades de sangue, marcando as criaturas que olham o chão perdido no horizonte...

A fotografia estampada nos jornais, últimas notícias, são máscaras mortuárias que atemorizam os outros, espalhando medo e pedido em cada esquina...

A angústia dos exilados continua no palco central, os velhos mortos, imortalizados em estátuas de sal, são desintegrados no percurso dessa viagem simples...

O êxtase e ócio alimentam o desejo febril, contido, como as estrelas guias cintilantes, que todos procuram e aparecem depois determinadas, para uma provável ressureição".


Ressurreição

"E por falar em poesias, onde estão as coisas belas que anunciaram? Não há rios, ou vestígios de águas que rolam seu pranto em algum ponto... Vejo apenas pedras disformes, enfermas, sob o sol escaldante. Onde pretendo chegar não sei. Também o porque esmago flores nas mãos... Mesmo assim, ofereço-te minha companhia e o resto dessas rosas...

Caso as rosas encontrem-se incompletas, não significa desleixo, trata-se de pedaços de coisas à toa, que não se encaixam com perfeição nos meus lábios entreabertos, onde escondi a pétala mor, que simboliza o vínculo entre minha ressurreição no deserto de atos e a confiança em desatar os caminhos que originam os rios...

Não toque nada com as mãos. Caso desejes algo, pegue com os lábios, porque a pétala é indefesa, carente de beijos e emoções. Depois de tudo, mesmo estando caído de cansaço, não temas, estarei estagnado de alegria na crisálida da transformação, onde suportarei a saudade e o afastamento final.

Amanheci noutro lugar, mais verde e puro como o espectro de luz, carregava comigo o hálito das rosas e um riso tímido de novato, voltava à vida suavemente, sentindo no âmago a vontade de acariciar a natureza. Transformava o retorno das águas no reflexo sentido de uma imagem trêmula, quando a brisa e o campo de um renascer provável, desabrocham plenos.

Ressuscitado, projetava toda a minha loucura, revia a paisagem rústica de outrora. Tinha finalmente a gravura incessantemente procurada... Alas abertas para minha euforia, estava revigorado e colorido em outro espaço, meus gritos ecoavam nos vales floridos, como carruagem de fogo, levava a vida imutável para um lugar equidistante, único e sem dimensões, um lugar sonhado, um amanhã, um outro dia".

 


Miragem de um maltrapilho

"Eu apertava o pescoço de um rival, tencionando matá-lo, numa transferência de grito e raiva, estereotipados na sede de vingança, no desejo de locomover e sucumbir aquela dor aprisionada...

Eu repreendia o ar, esvaindo-se do peito sugado pelos lábios turbinas, numa comparação de combate aéreo entre aviões e urubus famintos, no ensejo de querer sondar os moinhos de vento desafiadores...

Eu desafiava o silêncio, vencendo sempre meus gritos de guerra, numa sofreguidão de viagem, com o inocente filamento de suor escorrido, no plangente cântico da ira sem lira, descortinando-se na minha frente, na instantaneidade da miragem teimosamente fixa, ali ao longe, representante legítima dos meus derradeiros e longos dias".


Fim

"O calor do meu corpo esvai-se na dureza do frio lá fora

O meu olhar encontra-se paralisado num ponto equidistante

Numa coordenada intermediária na distância inversa do início

Na inusitada intenção de cruzar a imaginação, rumo às estrelas visíveis.

Essa viagem representa o meu fim. Canto comigo mais uma ilusão perdida, 

Se perdida fosse a redescoberta de uma aproximação impossível,

Se até o calor ausente do corpo, deixa-me imóvel nesse elo infindo

E impede que eu volte vivo, para o frio da minha realidade"...


Um estranho trajeto

"Quem diagnosticou com precisão o estranho trajeto daqueles que deixaram a serra verde e foram atrás de uma luz indefinida?

Formaram um cortejo estranho, puxado a carro de bois, que arrastavam os doentes e os assustados em meio às vozes tensas...

Os que estavam na planície, viram aquele espetáculo no chão. Os que estavam nas montanhas, viram-no de longe.

E a tal luminosidade, objetivo comum daquela horda louca? Cegou impiedosamente os incautos pela ambição do ouro, que depois sucmbiram prostrados sobre sua própria fome...

Deixaram um rastro sangrento como uma herança litigiosa, como o pão repartido à força, entre famintos sem ética, naquela trilha de gramíneas amareladas e estorricadas, pelo sal das lágrimas daqueles que por ali passaram".


Penúltimo canto de um pássaro

"Inerte no ocaso de um dia pacífico e comum, ouvia o canto aflito de um pássaro com peito seco. Nem sabia que se tratava de um canto hipnótico, indócil, de um pássaro triste nas cercanias da morte, que arrancava do umbigo/bico um canto inspirado, um solo uníssono, universal que desaparecia no ar...

Como poderia ser reproduzido aquele inepto estalo, numa sinfonia de cordas que embriagava o povaréu, provocando espumas que bailavam no barulho das águas, onde o canto do pássaro perdia a nitidez e o ritmo, mesmo amplificado nas estradas ultrajadas e úmidas, resultantes das unções que desapareciam no mar...

Como poderia definir o último canto de um pássaro preto, se depois da flauta, a chama dos violinos enebriava os flancos e invadia a noite em sua derradeira lágrima cristalizada, orvalhando o chão áspero com os pingos transparentes, que invadia brilhantemente o reflexo escorregadio das luzes, um líquido viscoso que desaparecia na terra...

Como poderia deixar a saudade voltar sem o último canto, numa confraternização de taças em mãos trêmulas, que se uniam nos salões dos templos acústicos, para ouvir o sufocado choro dos derradeiros vivos e observar os chuviscos que tangenciavam as penas douradas do pássaro semi morto que desaparecia no fogo...

A música se extinguia no penúltimo soluço, influenciada pela mística fusão entre mãe e filho, em um mesmo corpo mutante, como aquele canto frágil, símbolo ou sinal de aceitação à vida depois do pranto, que redimiu um pássaro sorridente na certeza do próximo canto, adentrando a noite simplificada na incerteza do fim...

Nem sempre o soluço de uma mãe de peito inflado, era colinear com o canto vago de um pássaro cego, tristes melodias inacabadas na longevidade do silêncio, insistentes réquiens renovadores de mães, pássaros e passados, que deixavam os sussurros nos últimos acordes, que ecoavam sem avisos nos labirintos dos templos azuis...

Como poderia interpretar aquela sinfonia de vozes, se no final de cada movimento, um novo canto ressurgia, em forma de lamúrias e gemidos que não calavam o tempo e que mostravam a ressonância da última essência do canto, um sinal luminoso refratado nos pilares de vidro, um atalho confiável, mas desaparecido no interior do sentir...

Num segundo movimento o ventre do tempo implacável, mostrava as lacunas abertas e direcionava o último grito, como uma súplica de mãe no desespero da perda, onde o meu pássaro perdera o rumo das batidas ritmadas e toava um canto póstumo, infinito e resignado, numa melodia decrescente, até o derradeiro gesto".


Idéias unilaterais, pensamentos próprios

"Tempo inflexível, ladrão da vida, vida funesta que morre a cada instante, como células sacrificadas na preservação do resto, pensamentos diferentes que ficam à toa, na morte do dia... dia que renasce insistente, numa masmorra festiva, como a certeza renovada na luminosidade do sempre...

Tristeza incomparada, oferta do tempo, resquícios de uma saudade incômoda, sentida no vagar do dia, remorsos unilaterais que fincam os pés nas costas quentes como a dinâmica de um rio mostrando suas margens difusas, renovando sempre a cada crime de um egoista amor...

Frustração infundada, presente algoz, como um corpo ausente deitado à margem do rio, cheia de impulsos e desejos no perfil de um dorso nu, exalando a matéria em ebulição, fixada nas mãos do acasalamento...

Amor incompleto, dádiva da dúvida, destroços de esperanças resumidas numa solidão crônica, geradas na dor correspondida do destino incerto, como se o sucesso das relações dependessem dessa dor...

Alegria inesperada, elo imprevisível, gestos ilegítimos de um sentimento novo, que limitado no tempo, penetra ileso nessa rudeza, tornando-o vivo na leveza dos minutos sentidos...

Futuro míope, mochila inútil como um baú inacessível, enterrado num crânio, sem previsão de abertura na preservação das idéias, um presente hipnótico desvendando pensamentos...

Morte heróica, hiato final. Amostras de uma sorte jogada fora na mistura do tempo. Mocidade perdida nas migalhas ofertadas e rejeitadas ilogicamente, gestos pulsantes de um gozo fatídico e mortal, no livre arbítrio de morrer, como um pula provinciano".


Tudo na manhã

"Manhã suave, te contemplo daqui dessa janela entreaberta, indiscreta, onde observo o teu envolvimento de fuga ao crescer do dia, tua perseguição implacável no ato simples de empurrar o sol para o lado oposto, toda a tua transparência no domínio direcionado dos ventos...

Manhã fria, úmida e indiferente ao bailado das plantas, assim como lânguido é o meu canto nessa lassidão, assim como é latente o latido do meu cão nessa paisagem vaga, assim como é lasso e sem estímulo o canto do Bem te vi.

Manhã triste, sombria que esconde uma rara beleza vesga, assim como o murmúrio das coisas nessa letargia do sofrer, assim como delimitado é o meu olhar sobre esse momento, assim como é denso e delicado ese meu encanto por ti.

Manhã pifia e tentadora, que insufla a vontade de praticar o mal, assim como os inertes não percebem a saudação da aurora, assim como o instinto  e a vontade de insurgir contra tua fúria e deixar de ser esse sapo verde com cabelos castanhos...

A manhã foi-se, o tempo úmido urgiu meu uivo rouco, a tristeza passou despercebida, quando a orquestra sileciou-se sem aviso, abrindo esse hiato sem acordes de pensamentos, premeditados e reflexivos, no privilégio real de voltar a ver-te amanhã, ressurgida plena da noite"...



Projétil

"Ao longe ouve-se os sons misteriosos oriundos de uma ilha, a essa altura, um ponto genérico, distante, no horizonte perdido, onde as imagens remotas dos ilhéus são projetadas nas paredes sujas da casa grande.

Resta apenas um horizonte nublado, esquecido no afastamento do tempo, uma ilusão de procura inútil, confundindo-se com o mar vermelho, uma expansão indesejada, para suportar a saudade cosntruída nesse afastamento, que leva meus olhos a fixarem-se no ponto distante e submerso na linha d'água.

A ilha agora é uma fotografia lançando na imaginação cósmica, sua luz de estrela. Eu sou o condutor no caminho inverso, carregando o feixe luminoso nos ombros, a fonte de luz densa, os sons ouvidos, o calor que evapora as lágrimas, que ficam na equação de incalculáveis números, nessa projeção infinda da distância.

Não poderei mais vê-la, o foco luminoso é um projétil louco no espaço, uma procura feérica de nova parede sem brilho, num lugar remoto qualquer, onde possa reacender a pira ardente da vida e retornar ao ponto de origem... Nesse regresso, no momento da interseção, gostaria de reencontrá-la outra vez".


Epílogo

"Depois de passar através de uma abertura subterrânea sob a cortina de capim que emoldura uma fonte secreta, deparo-me com a catedral dos meus sonhos...

Representados nas pedras e adereços de uma civilização perdida. Procuro a porta dessa igreja como se evitasse o fim, como se esquecesse  as naus, marias, veleiros e procissões... E diante desse muro, apenas o penhasco, a morte no mar, um comboio de lembranças sucumbidas nesse epílogo.

No além muro, encontra-se uma fortaleza impenetrável, por onde os ventos percorrem os labirintos em gritos estranhos, refratando no chão em forma multifacetada os sussurros perdidos, com os das mulheres que odeiam esse comportamento omisso. As garrafas são quebradas nas pedras como se quisessem cortá-las, revelando os instintos dos cortes nas gargantas dos homens, que duelam sem sucesso ao encontro das águas revoltas, diante do mar de chumbo e da procissão que vem do mar.

Tento me afastar para um lado e para outro, nessa gangorra pueril, uma fuga inútil decorrente da imutabilidade da igreja de pedra, tento em vão o caminho do ocidente, do oriente, nesse atalho de dúvidas, nas imagens subjetivas, nas dimensões fantásticas da mente...

Nesse movimento pendular percebo focos de luzes multicoloridas, que se confundem com flocos de nuvens no limbo do sonho, e explodem no horizonte com os gemidos repartidos das mulheres, até o preeenchimento completo dos questionamentos absorvidos.

Depois do vago presságio, retorno a busca das respostas incompletas, procuro as marias, os salva vidas, os caminhos do porto, as naus...Decifro os paradigmas, as mazelas do tempo, entre a minha ruína e a igreja, as diferenças existentes nos próximos passos rumo à morte certa.

Estou na vida por um fio, na dúvida cruel e tênue do epílogo, no foco debochado da última releitura dessa construção difusa, onde a lista encardida dos feitos, não mostra os meus bens, nem aponta com precisão a direção da flecha nessa procura inútil.

No nevoeiro da incerteza, as perguntas incisivas ficam sem respostas. Maria não veio, o barco não veio, a chuva não veio, a música não veio, o aviso não veio e o medo também. A insensatez é a única certeza...

Permaneço sonâmbulo, inerte, alheio, com o pensamento fixo em maria. Mesmo porque, depois da névoa úmida, não havia mais túneis secretos, a igreja, o muro e a fortaleza dissiparam-se do nada, no reabrir dos olhos...

Meus pensamentos e idéias levaram-me ao sono zen do esquecimento, ao desenho de nanquim que retratou e me distraiu nesse transcurso de paz".